Brasileiros tipo exportação

Era seu dia de sorte. “Você tem direito a 5 mil libras. Quer?” Aos 21 anos e lavando pratos em Londres, o catarinense Rafael dos Santos deixou a agência bancária com um sorriso típico de ganhador da loteria. A quantia era equivalente a seis meses de trabalho na capital inglesa, onde havia chegado meses antes para estudar inglês e fazer um pé de meia. Mas a euforia durou pouco. Bastou contar a grande notícia a um amigo para ser confrontado com os fatos: seu fraco vocabulário em inglês havia lhe pregado mais uma peça.

“A gerente tinha me oferecido um empréstimo, um business loan, mas eu nunca tinha ouvido a expressão. No lugar de um presente, levei para casa uma bolada com juros”, conta o paulistano. Foi então que Rafael sentiu pela primeira vez o estalo do empreendedorismo. Havia duas opções: voltar correndo para a agência e implorar por uma forma de devolver o dinheiro ou transformar o erro em oportunidade. A segunda opção foi a escolhida e, em menos de cinco anos, Rafael já estava faturando 100 mil libras esterlinas por mês.

Graças a seu trabalho, viajou para mais de 220 cidades em 45 países, coleciona prêmios de empreendedorismo e, sim, fala inglês fluentemente, a ponto de esquecer algumas expressões em português. Para quem sonha com uma alternativa ao mercado brasileiro, a trajetória de Rafael (que será contada em detalhes nas próximas páginas) é inspiradora. Sua história, assim como outras reunidas por DINHEIRO nesta reportagem, ajuda a desfazer o senso comum de que empreendedores estrangeiros são fadados ao preconceito, a possíveis barreiras nacionalistas e, eventualmente, ao fracasso.

Em alguns setores, inclusive, estar no exterior aumenta muito a probabilidade de sucesso. Se Eduardo Saverin tivesse criado um site de relacionamento para universitários no Brasil, as chances de ele conseguir um aporte de US$ 500 mil logo no primeiro ano, como aconteceu no Facebook, seriam ínfimas. Mas o brasileiro Saverin estava nos Estados Unidos, na prestigiada Universidade Harvard, exposto a toda uma cultura de fomento a novas ideias e onde não faltam investidores dispostos a arriscar em startups.

Foi exatamente esse cenário que fez o brasileiro Vitor Pamplona migrar do Rio Grande do Sul para Massachusetts. Formado em computação e com mestrado e doutorado no campo da oftalmologia, ele desenvolveu um sistema que simplifica drasticamente exames de vista. Batizado de EyeNetra, a invenção consiste em um aparelho que, acoplado a um smartphone, permite checar graus de miopia e astigmatismo com a mesma acurácia de um teste de consultório. Mas com uma diferença gritante de preço: enquanto o aparelho convencional custa entre R$ 50 mil e R$ 150 mil, o EyeNetra é vendido por US$ 900 no mercado americano.

Apesar do potencial do projeto, Vitor não encontrou espaço no Brasil. “Para criar um produto como esse, você precisa ter acesso a determinadas tecnologias que nem existiam no País”, diz o empresário. “Pelos meus cálculos, se eu continuasse no Brasil, levaria cerca de 20 anos para chegar ao produto final. Aqui nos Estados Unidos, demorou apenas um ano”. Como ele já havia passado uma temporada no renomado MIT, durante o doutorado, a saída foi voltar para lá. “Não que o dinheiro caia do céu.

Cheguei a fazer 350 rodadas de negócio em busca de um investidor, mas pelo menos aqui eles existem”, conta Pamplona, que por fim conseguiu um aporte de US$ 7 milhões, de um investidor indiano. No caso dos projetos em tecnologia, a vantagem do mercado americano vai além do acesso à pesquisa e aos investidores. Quando se fala de softwares e aplicativos, por exemplo, estar sediado nos Estados Unidos funciona como uma grande vitrine, aumentando significativamente as chances de o negócio ser notado e se expandir para outros países.

Essa foi uma das razões que levou o empresário João Paulo Diniz a investir no aplicativo Spinlister, um serviço que permite alugar bicicletas e pranchas de snowboard diretamente de pessoas comuns, em diversas cidades, ao estilo Airbnb. “Nos Estados Unidos, o negócio flui mais. Sem esforço, o Spinlister já foi parar na Europa e na Ásia”, conta Diniz. Quem está à frente do negócio é seu sócio, o empresário Marcelo Loureiro, que vive há sete anos em São Francisco, na Califórnia.

“A competição aqui é enorme, são muitos projetos de tecnologia com qualidade. Mas, ainda assim, compensa”, diz Loureiro. “Com US$ 800, eu mesmo abri a empresa, sem despachante, e demorou uma única tarde. E só tenho de pagar imposto se tiver lucro”, afirma. Com 50 mil usuários cadastrados e 10 mil bicicletas listadas em um período de dois anos, o Spinlister ainda está em fase de maturação. Os sócios não revelam quanto investiram na empresa, mas o valor, segundo Loureiro, está “no nível” do investimento inicial médio em uma startup de aplicativos, que vai de US$ 3 milhões a US$ 10 milhões.

“A ideia é expandir o negócio para outros equipamentos de esporte. Mas isso é uma visão para daqui a 10 anos”, diz. A tentação de abrir mão do mercado brasileiro em nome de uma empreitada internacional vai além do setor de tecnologia. E os Estados Unidos estão muito longe de ser o único destino com vantagens nessa seara. No ranking do Banco Mundial sobre ambiente de negócios, o Brasil ocupa o 116º lugar, de um total de 186 países. Isso quer dizer que o País está atrás não apenas de mercados mais desenvolvidos, como Estados Unidos (7º), Inglaterra (6º) e Alemanha (15º), mas também de vizinhos como Chile (48º) e Uruguai (92º) e de outros países em desenvolvimento, como Rússia (51º), África do Sul (73º) e China (84º).

O levantamento leva em consideração fatores como prazos, custos para abertura de empresas, peso dos impostos e até mesmo a celeridade da Justiça, quesitos em que o Brasil deixa a desejar. Enquanto na Inglaterra, por exemplo, é possível abrir uma empresa em quatro dias e a um custo equivalente a 0,1% da renda média per capita, no Brasil o mesmo procedimento leva 83 dias e custa 3,8% da renda média local do cidadão. “Não é que fora do País o sucesso esteja garantido, mas é inegável que, em países como os Estados Unidos, o empreendedor é muito bem tratado, seja ele americano ou imigrante”, diz Pedro Drummond, da Drummond Consultoria, com sedes em São Paulo e Miami, e que presta serviços a brasileiros interessados em empreender nos Estados Unidos.

Ainda que americanos e estrangeiros sejam tratados de forma igualitária na hora de abrir um novo negócio, o visto continua sendo uma barreira. Nos Estados Unidos, para conseguir o visto permanente (green card) o empresário estrangeiro precisa investir US$ 500 mil e ainda gerar 10 empregos diretos. Já na Inglaterra, esse valor é de 200 mil libras esterlinas e, na Alemanha, de € 250 mil. Na prática, porém, muitos brasileiros que consideram a hipótese de empreender no exterior já estão com algum outro tipo de visto temporário carimbado no passaporte. Foi o caso de Rafael dos Santos, mencionado no início dessa reportagem.

START UP Quando pegou o empréstimo por engano, Rafael já havia solicitado um visto de noivo (permissão temporária até a conclusão do casamento), o que lhe permitia abrir uma empresa. Depois de uma temporada morando com outros imigrantes em uma casa, onde o aluguel era dividido igualmente, ele chegou à conclusão de que seria mais interessante financeiramente ele mesmo alugar o imóvel e sublocar os quartos. Com o empréstimo em mãos, decidiu usar o dinheiro para alugar mais uma casa. E mais uma. Em sete anos, Rafael já era dono de uma agência de acomodação com uma carteira de 50 imóveis e faturamento de 1,2 milhão de libras esterlinas.

O empresário pegou gosto pela coisa. Vendeu a imobiliária, tornou-se consultor em microempreendedorismo e agora está envolvido com um novo projeto: a This Foreigner Can, uma aceleradora de empresas voltada para o público imigrante. A nova empreitada vai além de uma consultoria e oferece um programa de treinamento a um grupo de 10 imigrantes selecionados. Neste ano, a empresa deve inaugurar o MyHub, um espaço com 700 m2 onde o imigrante poderá alugar um espaço de trabalho e ainda ter acesso a especialistas em marketing, atendimento, contabilidade, entre outros serviços essenciais para quem está começando no ramo dos negócios.

Além de receber pelo serviço, a aceleradora tem ainda direito a 1% das startups criadas sob o guarda-chuva da This Foreigner Can. Um dos clientes, por exemplo, é uma emigrante da Espanha que tenta criar uma agência de babás que falem espanhol nativo, uma demanda cada vez mais crescente entre as famílias inglesas. Ainda que seu trabalho tenha o impacto social que ele buscava, o filão é inegável. Uma pesquisa realizada em 2014 pelo Centre of Entrepreneur, um instituto de Londres, mostrou que uma em cada sete empresas na Inglaterra foi fundada por imigrantes.

E mais: enquanto 10,4% dos britânicos seguem pelo caminho do empreendedorismo, entre os imigrantes esse número sobe para 17,2%. Nos Estados Unidos o cenário não é muito diferente. Maior destino de imigrantes da história da humanidade, o país viu sua economia ser construída com o trabalho de estrangeiros. Um estudo encomendado pelo Partnership for a New American Economy, um instituto americano sem fins lucrativos, mostrou que 40% das 500 maiores empresas americanas foram fundadas por um imigrante ou por filhos de imigrantes.

“É um país com um grande respeito ao espírito empreendedor. E o brasileiro que vem para cá com o intuito de abrir um negócio é muito bem visto”, diz Drumond. “A única ressalva é realmente quanto ao visto. Fora isso, não há grandes obstáculos além daqueles inerentes ao mercado”. Ele lembra que o ambiente favorável aos negócios não elimina tarefas básicas, como pesquisa de mercado, levantamento da concorrência e dos hábitos do consumidor e, principalmente, uma boa consultoria contábil e jurídica. Os especialistas também sugerem investir aos poucos, para avaliar a aceitação.

Foi o que fez a estilista fluminense Daniella Helayel, fundadora da grife Issa, de Londres, popularizada por celebridades como Madonna e Kate Middleton. Sua primeira coleção, de 2001, teve apenas um único comprador, a Daslu, no Brasil. Foi apenas com sua terceira coleção, apresentada em 2003, que a Issa conseguiu clientes de peso no mercado inglês, como Harrods e Selfridges. “Fiz tudo bem devagar, gradualmente. Preferi começar pequena e, ainda assim, o prejuízo nos primeiros anos foi grande”, diz. Os contatos, e o senso de oportunidade, segundo ela, de “estar na hora certa e no lugar certo”, fez a Issa sair de um faturamento de 150 mil libras em 2004 para 5,6 milhões de libras em 2006.

“Sempre fui muito bem assessorada. Apesar da facilidade em abrir um negócio na Inglaterra, tive ótimos advogados a meu lado”, conta Daniella, que em 2011 vendeu a Issa para a empresária Camilla Al-Fayed, filha do bilionário egípcio Mohammed Al-Fayed. Com mercados mais desenvolvidos e poucos entraves, Estados Unidos e grande parte da Europa acabam sendo os destinos mais visados por brasileiros, mas também há quem se aventure por países menos prováveis. O técnico agrícola paranaense Robson Gomes, de 37 anos, cogitava passar uma temporada nos Estados Unidos ou no Canadá, mas foi parar do outro lado do planeta: um empresário português ofereceu-lhe trabalho em São Tomé e Príncipe, na costa oeste da África.

“Vim para ficar apenas um mês e acabei ficando 12 anos”, conta. Apesar de todas as dificuldades – o país é uma ilha com apenas 187 mil habitantes, onde quase tudo precisa ser importado – Robson hoje tem uma padaria com 100 funcionários e faturamento de € 1,2 milhão. Um de seus grandes obstáculos, a falta de farinha no mercado local, ele transformou em oportunidade. “Montei uma empresa de transporte marítimo e hoje não apenas importo minha própria farinha, como vendo 200 toneladas por mês no mercado local”, conta. E o Brasil? “No primeiro ano pensei em desistir disso aqui, mas hoje, não volto, não”.

Fonte: Isto É Dinheiro