De Malas Prontas

No começo deste ano, o executivo Márcio Pedroso, presidente da subsidiária brasileira do Banco Volvo, desfrutava de alguns dias de folga na praia de Piçarras, no litoral Norte de Santa Catarina. De repente, seu celular tocou. Do outro lado da linha estava o americano Scott Rafkin, CEO mundial da Volvo Financial Services, instituição que gerencia cerca de US$ 17,7 bilhões em ativos globalmente. Com o pé descalço na areia, ao lado da mulher e dos dois filhos, Pedroso, 46 anos, formado em Ciências da Computação, estava eufórico ao final da ligação do chefão. Tratava-se da confirmação de que fora escolhido para comandar as operações do Banco Volvo em todas as Américas, em Greensboro, no Estado americano da Carolina do Norte.

Naquele mesmo dia, o executivo começou a se preparar para a mudança e despedir-se de Curitiba, seu endereço nos últimos 28 anos. Além de um novo desafio profissional, a promoção representa também a certeza de receber alguns milhares de dólares a mais por ano em sua conta bancária. “Graças à minha experiência em crises no Brasil, fui convocado pela matriz”, disse Pedroso, ao assumir o cargo no início de março. “Estou orgulhoso por ser o primeiro brasileiro a alcançar essa posição.” Seja por mérito, pela busca de uma experiência internacional ou simplesmente para fugir dos problemas enfrentados pela economia do País nos últimos tempos, um número cada vez maior de executivos brasileiros prefere buscar novos horizontes de trabalho lá fora.

Essa tendência, ampliada a partir do ano passado, foi constatada por um estudo da consultoria Thomas Case & Associados, de São Paulo, elaborada com exclusividade para a DINHEIRO. O levantamento, que contou com a participação de 339 executivos de todo o País, concluiu que 90% dos profissionais em cargos de primeiro escalão estão dispostos a trocar sua atual posição no Brasil para receber no exterior um salário igual ou maior ao que ganham atualmente aqui. Em princípio, descontadas as mudanças drásticas, como a distância da família, a necessidade de adaptação a novas culturas e idioma, essa reação positiva é esperada.

Afinal, quem não deseja uma remuneração melhor, novas oportunidades de ascensão na carreira e a valorização do currículo trazidos pela internacionalização? O que chama a atenção no levantamento, no entanto, é a quantidade de executivos que aceitariam ganhar menos para trabalhar lá fora: 36%. “Isso é bom para os executivos, mas pode ser perigoso no longo prazo”, diz Norberto Chadad, CEO da Thomas Case. “Mostra que estamos perdendo gente qualificada por falta de crença no futuro do Brasil.” O movimento de êxodo corporativo também tem sido observado por outras consultorias especializadas em recrutamento.

Segundo o diretor do escritório de headhunting Page Executive, Leandro Muniz, de cada quatro executivos entrevistados, três aceitariam se mudar de país. “Há quatro anos, era a mesma proporção, mas de profissionais brasileiros que trabalhavam no exterior e que gostariam de voltar”, afirma. A conta de Muniz, contudo, não contempla o número de estrangeiros que vinham tentar a sorte no Brasil naquela época. Em 2011, quase 69 mil profissionais de fora tiveram autorização do Ministério do Trabalho para emigrar para cá, aumento de 60% em comparação a 2008. No ano passado, foram apenas 47,2 mil novos entrantes.
A mudança de Pedroso, da Volvo, para os EUA, porém, não ocorreu apenas por falta de confiança no Brasil.

O desempenho do executivo dentro da empresa foi determinante para a promoção. Desde que assumiu o comando da financeira, em 2011, o executivo aumentou o valor da carteira de crédito em 61%, para R$ 2,9 bilhões. “Consegui esses resultados em bons e maus momentos”, diz Pedroso. “Creio que isso me credenciou para voos mais altos.” Para seus patrões, Pedroso possui o perfil padrão do executivo brasileiro, que geralmente é bem visto pelas empresas mundo afora por ser criativo, ter desenvoltura na comunicação e experiência em mercados turbulentos.

“O brasileiro tem o dom da flexibilidade”, diz Felipe Szpigel, há dois anos vivendo nos Estados Unidos, onde atua como vice-presidente da AB InBev, o maior grupo cervejeiro do mundo. “Para o brasileiro, não importa qual função irá exercer, pois só quer resolver o problema.” Com base nessas qualidades, muitas empresas com operação no País têm estimulado a exportação do chamado material humano interno, no jargão corporativo. A Ambev, braço brasileiro da AB InBev, se destaca nesse ponto.

Atualmente, a empresa controlada pela 3G Capital, do bilionário Jorge Paulo Lemann, em parceria com a belga Interbrew, mantém 114 profissionais brasileiros espalhados por suas operações ao redor do planeta. Quinze deles foram expatriados no primeiro trimestre deste ano, por meio do programa batizado de “Ciclo de Gente”. “Estimulamos a sucessão interna de executivos, seja para posições no Brasil seja para o exterior”, afirma Renato Biava, diretor de recursos humanos da Ambev.

SOBREVIVÊNCIA Muitos executivos, no entanto, não estão em busca de novos mercados apenas por questão curricular ou de experiência pessoal, mas por necessidade. De todos os entrevistados para a pesquisa, 70% disseram que a atual situação macroeconômica influencia na intenção de deixar o País. Uma das áreas mais atingidas pelo mau momento vivido pelo Brasil – cujo PIB cresceu apenas 0,1%, em 2014, e deve encolher em 2015 – foi a de óleo e gás, justamente a principal responsável pelo grande afluxo de mão de obra externa altamente especializada, nos anos recentes.

A Operação Lava Jato, que está expondo um gigantesco esquema de corrupção dentro da Petrobras e de empreiteiras fornecedoras, além da queda da OGX, do empresário Eike Batista, impactaram negativamente nos milhares de empregos criados pelo setor. Entre os afetados, figura o ex-presidente da subsidiária brasileira da GE Óleo & Gás, Jesse Vasconcellos. Desligado da empresa desde 2013, o executivo passou por um período sabático e voltou à ativa no fim do ano passado. Ele, contudo, ainda não encontrou nenhuma vaga com o seu perfil.

“Existe um ditado que diz que devemos caçar onde os patos estão”, afirma Vasconcellos. “Mas aqui não tem mais pato nenhum.” O ex-CEO, que era responsável pelas operações da americana Wellstream, adquirida pela GE em 2011, passa por dois processos seletivos, um na Ásia e outro na África. A procura por destinos menos óbvios, sem a pompa dos Estados Unidos e da Europa, faz parte da rotina de muitos executivos brasileiros que decidiram deixar o País. Segundo a Thomas Case, 15% dos profissionais estão interessados em experiências em mercados não tradicionais.

A Argo IT, empresa especializada em sistemas tecnológicos para agências de viagem, prepara-se para inaugurar sua unidade no México e, assim, ficar menos dependente do mercado nacional. “O México é o segundo maior país da região em viagens corporativas e, por isso, faz todo o sentido estarmos lá”, afirma Alexandre Arruda, CEO da recém-fundada Argo IT International. “Estamos vivendo um ótimo momento para investir na América Latina.” Os números do continente, porém, ainda são modestos se comparados aos grandes mercados. De acordo com dados da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), o PIB da região cresceu 1,1%, em 2014.

Se for contar apenas o continente sul-americano, o crescimento não passa de 0,7%, graças aos maus resultados das principais economias, como Brasil, Argentina e Venezuela. A população total, estimada em 600 milhões de pessoas, no entanto, evidencia a grande oportunidade local. “Queremos abrir uma nova fronteira no mercado latino-americano”, diz Solange Botelho, diretora regional de marketing da alemã Bayer. O mercado a que Solange se refere é o de medicamentos contra o câncer, setor em que a Bayer ainda está desenvolvendo na região.

Exatamente por isso, a executiva foi enviada para a cidade americana de Whippany, em Nova Jersey, para formular a estratégia de entrada do remédio nos países no continente. “Pela peculiaridade de cada país da América Latina, os diretores da Bayer perceberam que era necessário alguém local para tocar a operação”, afirma Solange. Para elaborar toda a estratégia de vendas, transferiu-se em março para os Estados Unidos e lá ficará até, pelo menos, 2018. Diferentemente da instabilidade no continente, um país que sempre aparece como queridinho dos investidores é o Chile.

Nos últimos cinco anos, a economia chilena teve um crescimento médio anual de 5,2%, desempenho que atraiu os olhares de diversas companhias brasileiras, Entre elas, o Itaú Unibanco. A fusão do banco brasileiro com o Corpbanca, no início de 2014, foi a maior da história do país andino, o que chamou a atenção do superintendente de finanças no Brasil, Paulo Almeida. “Mesmo sendo um mercado bem menor do que o brasileiro, o crescimento daqui me deixa exposto para a companhia”, afirma Almeida. “E o desafio da integração dos bancos será mais rico do que se eu estivesse no Brasil.”

QUERER É FÁCIL Apesar da vontade e do sonho de conseguir uma colocação de prestígio lá fora, muitos executivos reconhecem que não estão suficientemente preparados para assumir cargos internacionais. Dos entrevistados pela Thomas Case, 42% disseram não estar prontos para trabalhar em outros países. “Tendo em vista a baixa qualificação dos brasileiros, esse percentual poderia ser ainda maior”, diz Chadad, CEO da consultoria. De acordo com headhunters ouvidos por DINHEIRO, para ocupar novos postos no exterior um executivo, no mínimo, precisa dominar o idioma do país que deseja trabalhar, além de pós-graduação e MBA. Além disso, o profissional deve ter em mente que, atualmente, a posição pela qual ele almeja pode não ser possível, ainda mais por conta dos efeitos da crise econômica mundial.

“O momento não permite que o profissional tenha um nível de exigência alto”, diz Alexandre Benedetti, gerente executivo empresa de recrutamento Talenses. Há exceções, é claro, como mostra a história de Pedroso, da Volvo. Mesmo com um momento de incertezas no cenário global, Leonardo Burcius, gerente de produtos da MSD Saúde Animal, braço da farmacêutica americana Merck no segmento de veterinária, está mais perto de concretizar seu sonho, o de sentar na cadeira de presidente. Para isso, se preparou durante seis anos para a sua primeira experiência em outro mercado. Burcius concluiu um MBA no Brasil, passou por um intercâmbio de um mês no Canadá e finalizou sua preparação com um curso de especialização na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos.

A oportunidade surgiu neste começo de 2015. Burcius assumirá a diretoria regional de suínos das Américas da MSD. De malas prontas para Kenilworth, em Nova Jersey, o executivo comemora a promoção como uma etapa importante para tornar realidade seu plano de se tornar presidente. “É o caminho natural visto dentro da MSD para alcançar posições de liderança”, diz. “Outro lado bom será ganhar em dólar.” Assim como no caso da MSD com Burcius, diversas multinacionais têm estimulado o intercâmbio de brasileiros para posições estratégicas. O paulistano Ricardo Yoshino, da Kimberly Clark, gigante americana do setor de higiene pessoal, é um bom exemplo dessa tendência.

Ex-executivo da concorrente P&G, com experiência no Japão, Yoshino foi enviado em março para tocar a operação costarriquenha, a maior na América Central da dona das marcas Huggies e Kleenex. Sua principal missão, segundo ele, é ser um conciliador e fazer a empresa andar de maneira organizada. Seu retorno ao Brasil não tem data definida. “Não quero ter ansiedade para voltar, preciso focar nos resultados”, diz Yoshino. Ao menos, para se manter focado e com menos saudades de casa, o brasileiro terá como estímulo as praias paradisíacas da Costa Rica, das quais já vem desfrutando todos os fins de semana na companhia da mulher e filha.

Por: André Jankavski // ISTO É DINHEIRO

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